
O título responde a Robert Musil. Como o homem sem qualidades, a República brasileira se instala no abismo entre uma forma ideal e uma realidade muito distante dela. Não lhe faltam atributos por acidente: a distância entre o que ela diz ser e o que faz é a sua constituição.
O volume fecha a trilogia. Dos dias do último baile do Império, em novembro de 1889, até 1916, em plena Primeira Guerra Mundial, quase nada do que lhes foi prometido aconteceu. A pergunta que atravessa os três livros chega aqui à sua forma final: o que acontece com as pessoas, e com um país, quando uma guerra justa é perdida e a injustiça continua sob um nome diferente.
No fundo de um perau do Erval vive uma serpente de escamas azuis com faixas prateadas que reproduzem no dorso a abóbada celeste. A cada cinquenta anos ela sobe à terra para respirar, e essa subida é uma volta completa da roda da história. A última fora em 1845; o ciclo fecharia em 1895. A lenda atravessa os três volumes e só aqui se revela, numa história dos cadernos de Antônia a que o Maneco, menino, resolve dar outro fim, porque não gosta do rumo que a irmã mais velha está dando.
Escrito segundo a teoria da história de Walter Benjamin, o livro mistura temporalidades para alcançar aquilo que a cronologia esconde. Aurora e Abela, as duas faces da beleza rota: uma vence a asfixia das circunstâncias e nasce como força consciente na fronteira; a outra é desumanizada, transformada em matéria-prima e sacrificada por um demiurgo atoleimado que, como os tiranos, acredita ser legítimo aniquilar vidas reais no presente para moldar um amanhã idealizado.