
O subtítulo é um anagrama: BELEZA ROTA são as mesmas dez letras de A BERTOLEZA. Bertoleza é a mulher de O Cortiço, de Aluísio Azevedo, publicado em 1890, o primeiro ano da República. João Romão enriquece com o trabalho dela, retém o dinheiro que ela juntou para comprar a própria liberdade e o papel que a libertaria, e a denuncia aos herdeiros do antigo senhor no dia em que decide tornar-se respeitável. A abolição fora em 1888. A República veio em 1889. É essa a beleza rota, e é essa a República: a que precisou do trabalho e do corpo de quem depois entregou.
A Tabacaria Nacional responde ao poema de Fernando Pessoa: não sou nada, nunca serei nada, a parte isso tenho em mim todos os sonhos do mundo. Os dois pares dão o volume inteiro: Pessoa põe o sonho, Azevedo põe o corpo que ele custa.
A Revolução Federalista atravessa o Rio Grande do Sul e Santa Catarina. O livro acompanha a guerra por dentro: as degolas, a aliança entre Castilhos e Floriano, o exército regular contra os maragatos, o manifesto de Joca Tavares, o armamento comprado no Uruguai, os mercenários blancos entrando com as forças de Gumercindo Saraiva. O saque de Bagé, a degola sumária de mais de trezentos prisioneiros em Rio Negro, em novembro de 1893, e a resposta em Boi Preto, em abril de 1894.
A narrativa é fragmentada porque o que ela narra também foi. Não há ponto de vista único de onde uma guerra civil possa ser vista inteira, e o livro recusa construir um. E já aponta para o norte, onde a mesma lógica se prepara para repetir-se em Canudos.